fabrizio augusto poltronieri

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(a)(in)(di)(sub)(con)(re)versão
O PROCESSO DE MONTAGEM CINEMATOGRÁFICA E 'SPIDER', DE DAVID CRONENBERG

Compreender o processo cinematográfico como modalidade de linguagem articulatória para trabalhar a narrativa, buscando decodificar alguns dos aspectos desta linguagem e suas implicações, estabelecendo um diálogo entre as questões colocadas por 'spider', de david cronenberg, e as implicações que emergiram a partir das diversas manifestações da arte moderna – tendo em perspectiva o fato de que o cinema é uma linguagem, por excelência, moderna –, suas atualizações contemporâneas e as conseqüências das estéticas assumidamente subjetivas para o receptor são alguns dos pontos que este ensaio pretende tocar ou apontar.

Esta poética moderna deste tipo de cinema insere o receptor em um jogo extremamente subjetivo, estando o processo de significação entregue a sua capacidade repertorial e a sua habilidade em reorganizar este repertório em vista da experiência áudio-visual proporcionada pela narrativa fílmica.

É preciso deixar claro nesta abordagem que o produto cinematográfico é fruto de um processo de edição, o que significa que seus sintagmas finais foram previamente e calculadamente montados, escolhidos, selecionados e articulados, com o objetivo de comporem uma obra dramática. Temos aqui uma característica do produto cinematográfico: a construção formal do filme se dá muito antes da recepção, sendo formada por cenas mecanicamente registradas por um dispositivo técnico – a câmera – e que somente toma forma após uma série de operações seletivas.

Se faz necessária, portanto, a compreensão de alguns aspectos envolvidos nesta lógica, partindo do fato de que o processo de montagem cinematográfica utilizado 'spider', aponta para um fazer que busca conduzir o receptor a entrar e escrutinar os recintos mais escondidos de seu imaginário, inventando e reinventando a narrativa e suas mediações com a realidade. As ilusões, os desejos e os paradoxos envolvidos nesta relação se tornam visíveis. O desenrolar do filme revela suas estratégias, imagens e sons, mas o receptor também escolhe e seleciona o que apreende, escuta e vê, rearticulando e remontando continuamente a narrativa proposta. Neste ciclo, o que não é mostrado na tela revela tanto, ou até mais, dos aspectos envolvidos no processo de recepção, pois o poder do olhar manifesta-se também no que não é visto, que está a margem de uma visão focalizadora.

São nas brechas, nas aberturas, nas descontinuidade que o imaginário do receptor atua, preenchendo estes espaços com suas experiências repertoriais. A fruição das estéticas e poéticas modernas privilegia, portanto, a individuação. 'Spider' potencializa tais aspectos por não se articular em um tempo/espaço datado. A temporalidade se articula de forma indeterminada, indeterminação proporcionada pelo constante flash-back e sensação de deja-vu, de rememoração constante.

Esta abertura repertorial inclusiva é favorecida pelo que o língüista Roman Jakobson identificou como sendo um elemento bastante presente no discurso cinematográfico: a metonímia, a capacidade de reconhecer o todo pela parte, reconstruindo, ou constuindo, o todo. Esta visão da parte autoriza a reconstrução de um todo repertorial, onde o receptor projeta suas expectativas. Para Jakobson é este processo metonímico que torna um filme passível de significação, ao converter os objetos que compõem a narrativa em signos interdependentes. A experiência da visualidade no cinema nos permite, portanto, realizar uma reatualização do mundo.

A câmera que recorta o fluxo contínuo faz a linguagem cinematográfica operar por um processo de seleção, uma forma de organização paradigmática por se apoiar em possibilidades icônicas, mesmo sendo uma modalidade de linguagem construída a partir de um texto, representada por um roteiro simbólico com seus aspectos de lei, de convenção, de descrição.

A câmera traz uma ideologia própria, seu olhar não é inocente, remetendo à história das imagens, mais especificamente das imagens técnicas. A câmera traz a questão do ponto do vista, o que possibilita ao cinema realizar um interessante jogo objetivo/subjetivo que potencializa, pelo processo de montagem, a relação establecida entre quem vê e o que é visto.

Especificamente em 'Spider' estas relações criam uma narrativa reticular, que estabelece links espaço-temporais em rede na própria história do filme, criando também uma narrativa auto-referencial, construindo camadas que fazem referências cruzadas constantes a si mesmas. É aqui que reside o sofisticado mecanismo responsável pela não-linearidade do discurso apresentado. Interessante pontuar que o cinema, mesmo o cinema canônico das grandes produções comerciais, traz em si o embrião da não-linearidade, visto que em uma produção cinematográfica o processo de produção das imagens é fragmentado.

Em 'Spider' quando pensamos ter assumido o controle sobre a lógica temporal da narrativa somos arremessados novamente, despitados por cortes, forçados a reconstruir novamente o laço narrativo. Somos constantemente requisitados pelo discurso subjetivo do filme. O discurso do filme passa a ser um discurso interior, visto que a montagem cinematográfica afeta diretamente as emoções do receptor, mas também atua centralmente na significação do discurso, relativizando os possíveis sentidos absolutos que um recorte meramente técnico poderia induzir.

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